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O minimalismo provocativo de Igor Dadona

Por Thiago Alves

Originalmente postado em Navy Blue Closet

No século 19, o homem foi dândi e romântico, se rendeu à alfaiataria da Savile Row. A mulher, por sua vez, aprendeu a se expressar e mostrar um descontentamento com a repressão através da moda. Um século depois, o multiculturalismo, o cinema e as artes deram uma identidade à moda. As roupas refletiam períodos históricos, entre perdas e conquistas. Ainda no século 20, as roupas serviram como “divisor de águas” para sofrimentos que deveriam ser superados, como a transformação do visual utilitário para o “New Look” de Christian Dior.

Ainda no século 20, a música teve forte influência na moda e o “novo” era uma constante. Tudo influenciava, roupas foram desconstruídas e pensamentos filosóficos inspiravam o modo de vestir.

No entanto, nos últimos anos, a busca pelo novo vem encontrando uma grande dificuldade. A globalização e acesso a informação transformou a moda em algo banal. Grifes famosas se juntam em looks do dia que trazem dinheiro e fama para alguns “It” que desconhecem a importância e influência do modo de vestir na história universal.

Enfim, essa introdução de três parágrafos foi para apresentar a coleção de inverno do estilista paulista Igor Dadona. Como poucos, seu trabalho é recheado de influências, chegando a ser prazerosa a sua interpretação. Talvez seja por isso que sua coleção de Inverno tenha apelo fetichista, nos levando a um orgasmo cultural.

“A coleção de Inverno 2014 tem base referencial na obra do pintor Michael Hussar que mescla elementos do mundo masculino e feminino com fortes alusões à religião e ao sexo. Um mundo de dualidades onde o universo sombrio é explorado de forma perturbadora, porém belo. Desse universo, trouxe para a coleção a cartela de cores composta apenas por preto, branco e off-white, bordados pontuais e materiais como a lã, o couro e a pele sintéticos, criando uma queda de braços entre o sagrado e o profano. Pra essa coleção decidi criar um homem com apelo fetichista sem precisar expor o corpo, um exército sombrio e forte”, informou.

Assim como o universo gótico de Hussar é influenciado por diversos artistas de outros períodos, como Renascimento, Maneirismo e Romantismo, Dadona nos remete a referências vanguardistas, desconstrucionista e minimalista. “Eu gosto muito do movimento Minimalista, acredito que a base do meu trabalho seja minimalista, mas costumo brincar e dizer que faço um ‘minimalismo enfeitado’”, brincou.

O estilista trabalha com moda desde 2011 e faz parte do line up da Casa dos Criadores, principal evento de moda brasileiro voltado aos jovens designers. Sobre as dificuldades, Dadona é enfático. “Acredito que dificuldade financeira está presente em início de carreira. Você realmente arca com tudo sem ter a certeza de um retorno. E também o esforço para mostrar sua ideia e para que acreditem nela. Mas tudo vale a pena”, desabafou.

NOVO

“Talvez por essa ‘onda’ de transformar tudo em comercial, a moda tenha realmente perdido um pouco do brilho. Acredito que meu diferencial seja justamente apresentar algo comercial, mas que mesmo assim ainda desperte o interesse e o brilho nos olhos de quem acompanha meu trabalho. Faço tudo com minha alma, coloco muito sentimento nas minhas criações, e tenho certeza que as pessoas sentem isso, talvez esse seja meu principal link com quem acompanha meu trabalho”, relatou o estilista.

Para muitos historiadores e formadores de opinião, a moda é uma manifestação artística, assim como o cinema, artes plásticas e a música. “Acho que tudo o que sai do lugar comum pode ser encarado como arte. Costumo utilizar do universo feminino para construir meu homem, isso pode causar certo incômodo que logo se transforma em algo belo diante do olhar de quem aprecia meu trabalho. Esse é o papel da arte, incomodar, chocar, fazer pensar, você pode depois de tudo isso, não gostar, mas você “aceita”. Acho que acontece isso com algumas criações minhas”, concluiu Igor Dadona, revelando sua consciência artística.

Sobre o editorial, a contraposição seria a maior inspiração, segundo Dadona. “Pensamos num ambiente que ao mesmo tempo passasse diversas mensagens, do erótico ao misterioso, do romântico ao combate. Por isso o título Versus, é uma batalha entre dois pontos”. Confira o mais recente editorial da coleção de Inverno 2014:

 

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FOTO: Rafa Borges
COLEÇÃO: IGOR DADONA INVERNO 2014
BELEZA: Patricia Monaco
PRODUÇÃO DE MODA: Thainá Rodrigues
MODELOS: Alexandre Kunz / Andre Klitzke

coroa: Marcio Krakhecke para Igor Dadona
lenço: Tory Burch
metais: Estesia acessórios
Meias e tapa olho: acervo

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