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‘Que Horas Ela Volta’ é o melhor filme nacional dos últimos anos

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Regina Casé arrebenta como Val

O sucesso de Que Horas Ela Volta? pegou muita gente de surpresa – e eu me encaixo aqui. Ovacionado em festivais como Sundance e Berlin, acabou sendo o escolhido para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro no próximo ano – e desde Central do Brasil, o País nunca teve tantas chances. O fato é que a produção, escrita e dirigida por Anna Muylaert (É Proibido Fumar, O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias) merece mesmo toda a atenção que vem recebendo. É, talvez, o melhor filme nacional desde Cidade de Deus – e lá se vão 13 anos.

No enredo, somos apresentados à Val, uma doméstica que deixou o Recife há mais de dez anos. Todo esse tempo, ela trabalha para o casal Carlos e Bárbara, que vivem no Morumbi, área nobre de São Paulo. A empregada tem um carinho especial por Fabinho, filho do casal. Tratada “como se fosse da família”, as coisas começam a mudar quando Jéssica, a filha que ela não vê há uma década, resolve ir para São Paulo para prestar vestibular.

Dona de uma personalidade forte – e de uma geração totalmente diferente da mãe – é Jéssica quem começa a perceber como a família age com Val, que aceita tudo passivamente. Embora seja “praticamente” um membro da família, lá estão os limites estabelecidos pelos patrões aos empregados: não há permissão para acessar devidas partes da casa e utilizar a mesa da cozinha. Jéssica, claramente, não aceita essa vida e as coisas vão começar a mudar.

O nome que salta à tela é o de Regina Casé, porém, esqueça aquela apresentadora cheia de maneirismo que surge na TV brasileira aos domingos. Aqui, ela mostra seu melhor lado atriz e interpreta uma personagem forte, sem esteriótipo e cheio de um charme especial. Destaque também para Camila Márdila, que vive a filha de Val e está tão bem em cena quanto Regina. Helena Albergaria, que protagonizou o ótimo Trabalhar Cansa (recomendo, sensacional), faz uma ponta.

Val e a patroa Bárbara: relação "familiar"

Val e a patroa Bárbara: relação “familiar”

O mais interessante em Que Horas Ela Volta?, no entanto, é a maneira como Muylaert usa sua história para mostrar essa herança cultural que a sociedade brasileira ainda mantém: de tratar domésticas, praticamente, como escravas. A crítica social estabelecida pelo filme é explícita e fica ainda mais forte quando Jéssica, de verdade, começa a agir como se fosse da família, sem dar ouvidos às ordens da mãe. O roteiro, inteligente, faz com que o espectador crie possíveis saídas para cada personagem – eu fui pego de surpresa, e das minhas teorias, nenhuma delas se concretizou ao fim da projeção.

O brasileiro gosta de dizer que o cinema nacional é ruim, ou, “não tão bom quanto o de Hollywood”. Isso é só mais um exemplo da síndrome de vira-lata que afeta nossa população em várias áreas. O cinema brasileiro tem produções ótimas – assim como os EUA fazem muita coisa ruim, e Que Horas Ela Volta? é um ótimo exemplo de filme que todos deveriam assistir. Diz diretamente à nós e traz muito da nossa cultura. E o melhor: apresenta personagens sem se basear em muletas que beiram o preconceito. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida.

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