‘Os Oito Odiados’ é o pior filme de Quentin Tarantino

A primeira cena, quando ainda são mostrados os créditos de “Os Oito Odiados”, não é nada menos do que épica: a câmera, focada numa cruz no meio da estrada, dá um zoom-out e mostra um cenário desolado pela neve, sob um céu que denuncia uma iminente nova nevasca, enquanto uma diligência, lentamente, corta caminho pela paisagem. Para fechar a composição, uma trilha magistral do gênio Ênnio Morricone. Ao ver a cena, lindíssima, a sensação é que a produção que vem a seguir seja mais um daqueles westernn grandiosos. O que Quentin Tarantino apresenta, no entanto, é um filme arrastado, sem charme e que parece sair do nada para lugar algum.

A tal primeira cena, no final das contas, acaba sendo a melhor do filme. O aclamado oitavo longa-metragem de um dos maiores diretores da atualidade – Tarantino disse que vai parar de fazer filmes na sua décima produção -, na verdade, é quase como uma releitura de suas obras anteriores e traz elementos de “Cães de Aluguel”, “Django Livre” e “Bastardos Inglórios”. O problema é que não chega aos pés de nenhum desses filmes. “Os Oito Odiados” é, fácil, o mais chato e, até, sem propósito, longa do diretor. Na minha sessão, por exemplo, não foram poucas as pessoas que deixaram a projeção antes mesmo do meio do filme.

No seu novo longa, que estreou na semana passada, Tarantino retorna ao estilo que o consagrou em “Cães de Aluguel”: o de filme de câmara, onde quase todo o enredo se passa num único local – numa garagem, no longa de 1992, e no Armarinho da Minnie, um tipo de bar, no novo filme -. Esse nem é o problema, já que “Câes de Aluguel”, no caso, tem uma história interessantíssima e personagens fortes, que fazem você querer saber mais sobre o drama de cada um deles, contados em flashbacks. Não é o que acontece em “Os Oito Odiados”. A trama é modorrenta, os personagens não cativam e você simplesmente não se importa com o destino de cada um deles.

Samuel L. jackson, Jennifer Jason Leigh e Kurt Russell estão no elenco

Samuel L. jackson, Jennifer Jason Leigh e Kurt Russell estão no elenco

O que é quase controverso, já que os atores estão ótimos em seus papéis, com destaque para Jennifer Jason Leigh (que vive a assassina Daisy Domergue), Tim Roth (que dá vida ao carrasco Oswaldo Mobray) e Walton Goggins (o xerife Chris Mannix). O elenco usa o talento que tem de sobra para fazer personagens atrativos, mas não cola, já que a história – ou quase falta dela -, proposta por Tarantino, simplesmente não empolga. Os diálogos ácidos e engraçados, típicos do diretor, estão lá, claro, mas também não favorecem a linha narrativa e não ajudam a tirar o filme do poço de lama – ou sangue – no qual vai entrando.

A produção do filme é competente: fotografia e figurino, por exemplo, são muito bem feitos, e a trilha sonora de Ênnio Morricone dispensa elogios, sendo nada menos do que magistral. Mas, mesmo assim, nada disso parece favorecer a linha narrativa estabelecida pelo diretor. Ao assistir “Os Oito Odiados”, fica a sensação de que Tarantino tinha um grande elenco, uma verba gorda e todos os luxos para fazer um filme grandioso, mas não tinha o principal: uma boa história. Ele até aborda assuntos delicados (como machismo e preconceito), mas nem isso é tratado de uma maneira mais substancial.

Tecnicamente falando, "Os Oito Odiados" é deslumbrante

Tecnicamente falando, “Os Oito Odiados” é deslumbrante

Depois de tantos filmes geniais – não há adjetivos menores para Tarantino – a expectativa para “Os Oito Odiados”, seu oitavo filme e segundo western, eram as melhores possíveis. Porém, particularmente, a produção decepciona por errar onde, justamente, o diretor sempre acerta: na história. Claro, tudo aquilo que já é característico de sua filmografia está presente – como mortes, violência, sangue, piadas e tal -, mas, aqui, tudo parece monótono e sem inspiração. Para mim, “Os Oito Odiados” é o pior filme já feito por Tarantino.

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