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‘O Pequeno Príncipe’ questiona a ‘adultização’ das crianças

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O Pequeno Príncipe é inspirado no livro lançado em 1943

O livro Le Petit Prince, conhecido por aqui como “O Pequeno Príncipe”, é, talvez, uma das obras literárias mais famosas de todo o mundo. Escrita pelo francês Antoine de Saint-Exupéry e publicada em 1943, a história cativa geração pós geração… E você sabe: tu és eternamente responsável por aquilo que cativas. Os produtores e o diretor do filme de mesmo nome, lançado recentemente no Brasil, levaram a mais icônica frase do principezinho ao pé da letra e apresentaram uma animação bem executada, tecnicamente impressionante e que traz questionamentos importantes para a sociedade atual.

No enredo, somos apresentados à uma garotinha e sua mãe. Aos oito anos de idade, a criança já tem sua vida praticamente definida pela mãe: horários pré-determinados para estudar e se empenhar em entrar na principal e mais importante escola da cidade. Tudo começa a mudar quando a garotinha conhece o vizinho, um homem já idoso e cheio de energia. É ele quem vai apresentar à menina a história do Pequeno Príncipe, o que vai modificar todo o futuro da pequena.

A animação se propõe a tratar de um assunto de extrema importância e cada vez mais em pauta na sociedade: a “adultização” das crianças. No longa, a mãe não cede espaço para que a garota seja ela mesma e faça coisas comuns às demais crianças, pensando apenas em seu futuro e colocando nela suas próprias frustrações. Vemos isso facilmente no nosso dia a dia. Crianças posando com “look do dia”, outras comprando maquiagem ou até indo para a academia, por exemplo, não são mais coisas absurdas e estão mais e mais comuns.

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Relação da garotinha com o vizinho vai mudar o seu futuro

Não é difícil encontrarmos, também, crianças que seguem cronogramas quase tão regulados quanto o de adultos. Aulas de mandarim, inglês e espanhol. Atividades como pintura, judô, natação ou aulas de reforço. Tudo isso e muito mais têm, cada vez mais, preenchido o tempo de crianças que, ao menos na teoria, deveriam estar se preocupando em ser apenas crianças. Não estou dizendo que isso tudo não é importante: só que há momentos específicos para cada uma delas, e, talvez, não seja na primeira infância.

Isso tudo é muito bem abordado (quase desenhado, para que todos possam entender) pela produção francesa. A garotinha da história simplesmente não sabe o que é ser uma criança de verdade até começar a se relacionar com o vizinho, por quem, pela primeira vez, cria um laço de amizade verdadeiro. É somente com ele que ela pode (e tem coragem) de ser quem realmente é. Com a mãe, em contrapartida, começa a fingir e a mentir que está seguindo as regras determinadas.

Não só pelo tema abordado como também pelo bom roteiro que possui, não espere que O Pequeno Príncipe seja um filme direcionado para as crianças: obviamente, ele não é. Com uma inspiração clara em produção da Pixar, a animação tem como objetivo atingir os adultos que vão levar seus pequenos às salas de cinema. Claro, as crianças também vão gostar do filme – é colorido e tem personagens carismáticos, mas a mensagem implícita promete cair como uma bomba em adultos menos preparados.

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O filme é visualmente impecável

Saindo um pouco do âmbito de temas e mensagens e caindo na parte técnica, O Pequeno Príncipe também chama a atenção. A trilha sonora conta com Hans Zimmer, compositor que dispensa comentários e é um dos importantes da atualidade. Já na parte visual, o filme mescla duas formas distintas de narrativa: a animação em 3D e o stop-motion. A primeira delas é a predominante e é usada para contar a história da relação da garota com o novo amigo. Já a segunda aborda os momentos em que o velho narra a história do Pequeno Príncipe e sua jornada pelo universo. Nesse sentido, não há dúvidas: o filme é impecável.

Mas, mesmo com tantos pontos positivos, a animação apresenta (pequenos) erros, que não comprometem muito o “todo”. E eles estão, todos, no terceiro e último ato. Quando o enredo dá uma guinada (não entrarei em detalhes para evitar spoilers), a linha narrativa tem uma mudança drástica, que quebra o ritmo do filme. Antes colorido e alegre, ele se torna lúgubre e desanimador. É compreensível, no entanto, do ponto de vista do roteiro e estético, além de ter sido claramente a intenção da equipe criativa. No entanto, na tela, isso diminui o ritmo do filme, que demora a voltar a engrenar.

Mesmo com esses pequenos detalhes que podem incomodar o espectador mais atento, O Pequeno Príncipe merece todo o sucesso que tem conseguido em terras brasileiras. A produção é correta, visualmente deslumbrante e traz questionamentos importantes sem ser piegas – coisa que Hollywood sabe fazer como ninguém, ser piegas. A animação tem um toque doce e trata de assuntos pesados sem duvidar da inteligência de quem está na sala do cinema, fazendo quase uma mescla de produções europeias e desenhos da Pixar. Por último, mas não menos importante, ressalto o trabalho impecável da dublagem brasileira, com Larissa Manoela (de Carrossel) e Marcos Caruso como protagonistas. Para quem gosta de animações, O Pequeno Príncipe é obrigatório.

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